Por Francimar Araujo
Introdução
Segundo o Dicionário Vine, discípulo é um aprendiz que pratica os ensinamentos de seu mestre. Esta definição nos transmite a ideia do discipulado Cristocêntrico, o qual sempre busca colocar o Senhor Jesus como o paradigma de nossas vidas. Um discípulo não nasce pronto. Ele é formado e sua formação é um dos maiores desafios da igreja. O processo de formação de um discípulo deve seguir o modelo das sagradas escrituras, mais precisamente o padrão utilizado por Jesus. O missão da Igreja não termina com a evangelização, mas continua com a implantação do discipulado para àquelas pessoas que se convertem a Cristo. A evangelização finda com a alma se rendendo ao Senhor, no entanto o discipulado é uma lapidação contínua até que cheguemos ao padrão que Deus estabeleceu para nossas vidas.
A obra missionária e a missão discipuladora se completam e a segunda dá sentido a primeira. A formação do discípulo não está ligada ao denominacionalismo nem tampouco ao proselitismo, pois o objetivo é sempre levar o discipulando ao conhecimento de Cristo baseado pela influência da sua nova natureza e da ministração da Palavra de Deus. Será que estamos dando a devida importância ao discipulado cristão? Como estamos nos preparando para a realização deste trabalho?
Em nossos dias temos visto uma grande propagação do Evangelho, muito investimento em cruzadas, programas de tv, rádio e internet, mas o discipulado tem ficado em último plano. Temos sofrido com igrejas cheias de pessoas, espiritualmente frustradas, que não vivem a magnitude do evangelho por lhes faltarem discipuladores que as conduzam em sua nova caminhada. A melhor maneira de mudarmos este quadro é investirmos na formação de discipuladores com o propósito de levarmos os novos crentes à maturidade cristã.
Discípulo
A palavra grega traduzida como discípulo é mathetés, usada 269 vezes nos Evangelhos e Atos dos Apóstolos. O seu significado aponta para um aprendiz que aplica na sua vida, de maneira profunda, os ensinamentos de um mestre. Uma outra palavra é mimethés, que significa imitador, mostrando que Jesus é o nosso modelo em todas as coisas. Paulo em sua primeira epístola aos coríntios escreve: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (I Co 11.1). Em Jo 8.31 temos: “Dizia pois Jesus aos judeus que nele creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos”. Neste versículo temos como base para o discipulado cristão os ensinamentos do nosso mestre, o Senhor Jesus. O verbo permanecer nos dá a ideia de repousar, ficar sobre algo, guardar aquilo que foi ensinado. A passagem de Lc 14.33 nos diz: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo”. O verdadeiro discípulo compreende que a vida cristã é sinônimo de renúncia, Não vive mas as suas convicções humanistas, tem uma profunda necessidade de fazer a vontade de Deus e está disposto a dizer como o Apóstolo Paulo: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Assim, John F. MacArthur Jr., define um discípulo: “Discípulo é alguém cuja fé se expressa em submissão e obediência. Discípulo é alguém que segue a Cristo, que está inquestionavelmente comprometido com Cristo como seu Senhor e Salvador; alguém que deseja agradar a Deus. Seu objetivo é ser em tudo um discípulo de Jesus Cristo. Quando peca, busca o perdão e dispõe-se a continuar avante. Este é o seu espírito e o seu caminhar”.
Discipulado
O discipulado é uma ordenança de Jesus (Mt 28.19) e torna-se de extrema importância para o crescimento da Igreja. Apesar de termos no NT o maior número de referências relacionadas ao discipulado, encontramos vários discipuladores no AT. Moisés e Josué (Dt 3.28), Samuel e a escola de profetas (I Sm 10.10), Elias e Eliseu ( I Rs 19.20,21). A tarefa de transmitir o conhecimento da vontade divina sempre existiu. No NT temos nomes proemimentes como João Batista, Gamaliel que foi um grande rabino judeu, o Apóstolo Paulo e o Mestre dos mestres, Jesus Cristo. A Igreja é um organismo vivo em desenvolvimento. O discipulado torna-se necessário para o crescimento do Corpo de Cristo (I Pe 2.2). E esse desenvolvimento espiritual torna-nos capazes de vencer os enganos e sofismas que corrompem o verdadeiro Evangelho. A Regeneração, a Justificação e a Adoção, ocorrem instantaneamente após a Conversão, mas Sanficação que é operada mediante o Espírito Santo através da ação discipuladora da Igreja, é uma obra contínua até que cheguemos à medida de Cristo (Ef 4.13).
Discipulador
David Kornfield diz: "Discipulado é uma relação comprometida e pessoal, onde um discípulo mais maduro ajuda outros discípulos de Jesus Cristo a aproximarem-se mais dEle e assim se reproduzirem". Logo, o discipulador não pode ser alguém que se converteu há pouco tempo. A tarefa de formar um discípulo deve ser dada a alguém que já adquiriu uma maturidade espiritual e que demonstra frutos na vida cristã. Veja a recomendação de Paulo a Timóteo: “E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (II Tm 2.2). Discipular alguém exige daqueles que o fazem, total dedicação e comprometimento, além de graça e conhecimento para que às necessidades do discipulando sejam atendidas, durante o processo de aprendizagem. No entanto o principal é que os discipuladores sejam vocacionados por Deus para esta importante missão (Gl 1.15).
Formação do discípulo
A Grande Comissão é a principal tarefa da Igreja para com o Mundo, mas para que tenha sucesso, se faz necessária a formação de discípulos comprometidos com essa grande obra. Como devemos formar um discípulo? Dependendo de como respondemos essa pergunta, estaremos cometendo um grande erro que poderá levar ao fracasso, todo o trabalho realizado. Como Jesus formou Seus discípulos? Jesus sempre ensinou às multidões (Mt 15.10; Mt 13.2; Mt 7.28; Mc 2.13), ou seja, Ele desenvolveu um ministério de ensino público. Dois terços do que está registrado nos Evangelhos com respeito ao ministério de Jesus foram dedicados ao ensino. Apesar de sempre ensinar a um grande número de pessoas, Ele elegeu um grupo formado por doze homens, cujo propósito seria ensinar-lhes particularmente (Mt 13.36; Mt 16.21; Mt 20.17), prepará-los para que após a Sua partida, eles pudessem testificar a respeito de tudo quanto tinham aprendido do Mestre e formarem novos discípulos. As grandes verdades espirituais do Evangelho e da Sua missão aqui na terra, bem como a Sua morte e ressurreição, Jesus revelou aos Seus discípulos mais próximos. O discipulado torna-se mais eficaz quando realizado de uma forma pessoal, pois além de transmitirmos o conhecimento, podemos acompanhar de perto o desenvolvimento dos neófitos, estando sempre prontos a ajudá-los quando fraquejarem na Fé (Mt 14.28-31).
Discipulado em Atos dos Apóstolos
O livro dos Atos dos Apóstolos, que é considerado o “Manual de Missiologia”, também nos apresenta não apenas uma Igreja comprometida com a evangelização, mas uma comunidade cristã que se preocupava com o ensino daqueles que aceitavam a Fé (At 5.21; 11.26; 20.20). O crescimento da Igreja Primitiva não estava apenas relacionado com o ensino, mas vinha de uma comunhão profunda entre os irmãos (At 2.44). A comunhão além de favorecer o crescimento espiritual dos crentes, provocava admiração dos incrédulos e contribuía para a evangelização (At 2.47). Discipular eficazmente envolve transmissão de conhecimento, acompanhamento, aconselhamento e comunhão. Vemos nos missionários, Paulo e Barnabé, que os mesmos passavam nas Igrejas que haviam sido fundadas, com o objetivo de fortalecer a Fé dos irmãos e acompanharem o desenvolvimento espiritual da Igreja (At 14.22; 15.36). Os Apóstolos não apenas evangelizavam, mas procuravam discipular, mostrando que o trabalho missionário sem o suporte das almas, torna-se incompleto na formação do discípulo. A Igreja, a exemplo de Cristo, precisa ser completa em sua missão (Mt 4.23).
Discipulado nas Epístolas Paulinas
Em todas as suas cartas, treze ao total, o Apóstolo Paulo tinha como objetivos o crescimento, a edificação e a formação de verdadeiros discípulos. Ele sabia que o modelo de vida da Igreja é o próprio Jesus (I Co 11.1). Se entendermos como discipulado, a tarefa de conduzirmos vidas ao senhorio de Cristo, não nos resta nenhuma dúvida quanto à importância dos escritos paulinos com relação a este assunto. Em suas recomendações, o Apóstolo dos Gentios, buscava sempre o crescimento da igreja, seja de forma individual ou coletiva. As recomendações eram muitas e demonstravam o seu amor pela Igreja do Senhor. Como poucos, ele discorreu sobre as principais doutrinas da Bíblia, trazendo esclarecimentos que edificaram a Igreja e a livrou das heresias de seu tempo. Na sua carta aos gálatas, combateu a doutrina dos judaizantes, que colocavam como necessária à salvação a prática da circuncisão, bem como pregavam o acréscimo da observância da Lei à fé. Diziam que a fé em Cristo sem estar acompanhada da guarda da Lei era insuficiente para a salvação. Em Gálatas 2.16, Paulo escreve que pelas obras da Lei ninguém será justificado. O zelo do Apóstolo o levava a ser muitas vezes duro com seus discípulos, mas tinha sempre como objetivo o crescimento do Corpo de Cristo (II Co 11.2). Elogiava e reconhecia as qualidades dos irmãos, transformando as suas palavras em exortação para a igreja. (I Ts 1.7-8). Quando não podia comparecer, enviava representantes, demonstrando a sua preocupação com o crescimento e fortalecimento das igrejas (I Co 4.17; I Ts 3.2). Um ensino forte encontrado nas cartas paulinas é a prática da oração. O Apóstolo colocava a oração como uma arma poderosa para o crescimento espiritual (Ef 6.18; I Ts 5.17). Paulo reconhecia o poder da oração intercessória e pedia aos irmãos que orassem pelo seu ministério (I Ts 5.25; Cl 4.3; I Tm 2.8). Mas de todas as formas que Paulo usou para que o discipulado alcançasse êxito, em nenhuma outra podemos ver o desejo do Apóstolo com relação ao crescimento do Corpo de Cristo do que na maneira como ele orava pelas igrejas (Cl 1.3,9; Ef 1.16-23; 3.14-19).
O Poder do Exemplo
Não poderia terminar essas considerações a respeito do discipulado cristão sem falar sobre este ponto: O Poder do exemplo no discipulado. Dificilmente alguém tomará um remédio para uma enfermidade se o mesmo não for comprovado e surtir efeito numa outra pessoa. Quando falamos de discipulado tenho a certeza de que a maior influência na vida de um novo convertido é a maturidade espiritual demonstrada por seus líderes através de suas ações. O recém-convertido precisa ver no nosso modo de viver, ou seja, a materialização das nossas crenças. Um discipulador é um guia, e não pode conduzir alguém por um caminho que ele mesmo desconheça. George Swinnock disse: “O homem é uma criatura influenciada mais por padrões do que por preceitos”. O Nosso Senhor Jesus sabia o poder que o exemplo tem para influenciar as pessoas e na famosa cerimônia do “Lava-pés”, para transmitir um ensino sobre humildade lavou os pés dos discípulos e disse: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também”(Jo 13.13-15). O bom exemplo encoraja, fortalece, consola, edifica. O Apóstolo Paulo quando estava preso em Roma, falou das aflições que enfrentou e dos livramentos que Deus o deu com o objetivo de encorajar o jovem Timóteo a perseverar na Fé (II Tm 3.10,11). Ser exemplo, modelo ou padrão significa influenciar alguém. A essência da liderança é servir e através deste serviço infuenciarmos positivamente os liderados a realizarem o que desejamos. Não existe discipulado sem influência. O discipulador tem que estar consciente de sua responsabilidade, sabendo que as suas ações estará contribuindo para a formação do discipulando. Paulo ao escrever as suas epístolas pastorais alerta aos irmãos Tito e Timóteo quanto a importância de serem exemplos para as igrejas que estavam em Creta e Éfeso respectivamente (I Tm 4.12; Tt 2.7). O Apóstolo Pedro, um dos principais discípulos de Cristo, quando encrevia aos irmãos dispersos os encorajou a prosseguirem e perseverarem na fé mesmo padecendo perseguições e fez isso usando o Nosso Senhor como exemplo (I Pe 2.21).
Conclusão
Cristo é o nosso modelo, a Bíblia nosso manual, mas não podemos abrir mão dos recursos necessários. Os métodos devem ser estudados e utilizados visando um melhor aproveitamento. Devemos investir na capacitação dos discipuladores para que tenhamos uma Igreja saudável e cada vez mais espiritual. Vejamos o que Tony Evans nos diz a respeito do discipulado: “Discipulado é aquele processo de desenvolvimento da igreja local que progressivamente conduz os cristãos da infância para a maturidade espiritual, de tal maneira que se tornam capazes de repetir o processo com outra pessoa”. Prossigamos com o objetivo de alcançar o desenvolvimento espiritual dos santos, para que possamos desfrutar de um crescimento verdadeiro e contribuirmos para igrejas cheias de genuínos discípulos do Mestre.
Bibliologia
Evans, Tony. Discipulado Espiritual Dinâmico. Editora Vida, 1ª edição, 2000.
Kornfield, David. Série Grupos de Discipulado. Editora SEPAL, 1994.
MacArthur Jr., John F. O Evangelho Segundo Jesus. Editora Fiel, 2ª edição.
Moore, Waylon. Multiplicando Discípulos. Editora Juerp, 4ª edição, 1995.
Vine, W. E. Dicionário Vine. Editora CPAD, 6ª edição, 2006.